Isto é uma conversa mais que arrastada. A bobagem do futebol. Tem aqueles que até acreditam. Futebol é cultura. Pra mim, apenas uma desculpa, aqui nos Brasis, para torcedores rivais empalarem-se uns aos outros.
Pensem no tempo desperdiçado com crônicas sobre futebol – como esta – e as respectivas páginas impressas, os rios de dinheiro mal geridos por criminosos que presidem os clubes. Sem falar na monstruosidade das chamadas Torcidas Organizadas. Pra mim, o futebol brasileiro não passa de um fuzuê desgraçado, mais pernicioso do que qualquer buraco na camada de ozônio ou aquecimento global. É tão óbvio que ninguém parece se dar conta.
Fechem e explodam os estádios, pelo amor de Deus!
O futebol brasileiro já-era. Faleceu em 1982. Faleceu outra vez em 1994. A agonia se estende, um vegetal comemorado e assediado por uma máquina parasita chamada Indústria Cultural. Alguém aí vai sacar seu revólver? Ou será talão de cheque? Pra ser mais atual, cartão de crédito que não tem preço.
Já disse em algum lugar e volto a dizer: para um país que só pratica um esporte é uma vergonha o nosso desempenho futebolístico. Tínhamos que ser, no mímino, dez vezes campeões mundiais! É só comparar com o basquete americano. Eles são IMBATÍVEIS! O que ainda é uma comparação injusta. Eles não vivem só de basquete. Mas nós, só sabemos fazer uma coisa. Jogar e falar de futebol.
Pode haver coisa mais abjeta do que crônica-social? Sim. A crônica-esportiva futebolística. Porque tudo gira em torno dele.
O Pelé não pode ser Rei de merda nenhuma. Rei é o Nelson Rodrigues que conseguiu dar alguma dignidade a esse esporte pífio.
Eu sou brocha. Também sofro de ejaculação precoce. Meu pau duro é do tamanho de uma tampinha de garrafinha de Coca-Cola. Torço pro América-MG. Não conheço na vida ninguém mais fudido do que eu.
Os olhos molhados, o rosto vermelho como um pimentão.
A bosta dos quinze anos. O fiasco aos trinta. E, aos cinqüenta, a corda apertada no pescoço.
Essas conversas não as compreendo. Perco o fio da meada logo nas primeiras palavras ou conclusões, os diálogos não tardam em me entediar. E caio em um sono acordado, um desinteresse, uma anticuriosidade fatal e irremediável.
Essa comoção nacional me provoca uma falta de chão, não comungo com eles nenhum espanto ou entusiasmo. Me afasto e me isolo.
Não me aborreçam. Não, pelo amor de Deus. Rodriga cismou de me contar sua vida em 1968. O pai e a família que a abandonaram, seus dias em Curitiba e o retorno à Belo Horizonte. Não quis saber dos detalhes. Não quero me aborrecer. Já bastam os meus deslocamentos diante da TV. Faustão e Casas Bahia. As finais do Brasileirão. E a fatalidade perturbadora dos canais de venda, dos condomínios imperdíveis. Dos televisores de última geração. Não preciso de nada disso. Tampouco me interessa a carnificina das pequenas ou grandes tragédias. Ou as convenções familiares. Detesto todas as solenidades. Ou formalidades. Não suporto festas ou formaturas. Mesmo um simples aniversário de criança pode me matar, um tédio furioso. Sou afastado. Olho o vazio e encho a cara.
Foi sempre assim, olhando o vazio e me sentindo sem chão, sem comunhão com nada. E outra vez enchendo a cara.
Mal-estar fudido ao assistir novelas da TV ou seriados americanos bacaninhas. Eles me aborrecem, me fazem virar os olhos pro vazio. Não participo da comoção ao meu redor. O entusiasmo incompreensível para mim daqueles que se comovem com recém-nascidos ou mulheres grávidas. Isso me aborrece, mulheres grávidas e recém-nascidos, bebezinhos. As crianças, por que elas não crescem logo e morrem? Também não suporto as grávidas. Sonhei que esfaqueava uma grávida. Igual na cena da banheira do “Psicose”. Outra eu enforquei dentro do Caixa 24 Horas. Deslocamento fudido é ter que engolir a família e suas manias de querer ser classe-média, a loucura pelo dinheiro, o mal-gosto e a conversa mole dessa gente besta e sem vida. Reclamam de futilidades. Do carro que arranhou, do forno microondas que não funciona. Por que eles não vão ler um romance e, quem sabe, descobrir algo além das vitrines da Riachuelo e das promoções das Casas Bahia? Sonham com o carro-zero e a prestação da cobertura bacaninha. Fazer filhos rinocerontes e pagar as mensalidades das escolas particulares etc. Casas de estantes vazias e taras inconfessáveis. O programa dessa gente é juntar a família e ir ao shopping aos sábados à noite. Não querem nada mais do que passear pelas galerias entupidas de gente igualzinha a eles. Não têm outro lugar para ir. O shopping e as compras ordinárias, o cheque-especial e os cartões de crédito (que mentira esse nome, nós não temos crédito nenhum nesse mundo!). Eu não quero participar desse alvoroço. Pro inferno todos eles.
Que se dane o conforto dessa gente.
Aprendi a desconfiar de qualquer cartão-postal e das ofertas das Casas Bahia. Só desejo uma dose de qualquer uísque vagabundo, a liberdade de falar o que der vontade e, de vez em quando, assassinar alguns babacas que cagam regras e modelos de viver e morrer. Que se fodam junto com suas coberturas, carros novos e pacotões de viagens da CVC. Eu não quero nem preciso de férias na Bahia.
Minha única condição; o alcoolismo. É o que sei fazer e mais nada. Não espero de mim outra coisa além do fundo do copo. Minha família, com o tempo, sacou isso. Só sirvo pra enxugar uma garrafa em uma noite. Assumo todos os riscos. Que se dane a vida.
Eu esfaqueei uma grávida. Quero que todas as crianças birrentas, rinocerontes, cresçam logo e morram. Duvido de qualquer cartão-postal. E jamais comprarei os pacotões de viagem da CVC Turismo.
Eu pago o preço das minhas idiossincrasias. Quero que me esqueçam antes que a garrafa esvazie outra vez. Encho a cara e solto peidos na sua fuça. Mas você finge que eu não fiz nada, que nada aconteceu.
Seu babaca.
É o cacete. É um inferno. Lembro do casamento da minha prima. Eu tinha dez anos. A família da minha Tia Z. morava em São João Del Rei, MG. O medo era maior a cada dia. Aquele casamento foi uma experiência desastrosa. A primeira consciência dos meus deslocamentos. Eu não queria estar ali, aquelas pessoas me eram estranhas, elas me assustavam. Hoje sei que suas conversas bestas, suas manias por carros são para mim o que há de mais intragável. É uma banalidade que me irrita pracaralho. Mas aos dez anos não dá pra pensar assim. O deslocamento ficava dentro de mim e eu é que me sentia culpado por não conseguir ser uma criança feliz como as outras. Não entendia – e até hoje não entendo – o alvoroço que as pessoas arrumavam por qualquer banalidade. Não queria participar das festas. Eu, então, me escondia nos banheiros e me enrolada nas toalhas sujas. Cheirava as meias no balde de roupas, e as bostas cagadas nos papéis higiênicos da lixeira. Chupava todas as escovas do armário. Sei lá. Aqueles azulejos brancos e o isolamento de alguma forma me acalmavam. Só encontrei comunhão com um velho que, sozinho no quarto, arranhava um violão. Fiquei bobo, parado, olhando. Essa cena me sinalizou a possibilidade de não participar do alvoroço do mundo. Encontrar o meu lugar, o refúgio.
Mas aos 30 anos já se sabe. Nenhum refúgio é seguro por mais de uma noite.
Total eclipse of the heart. Eu ouvia as baladas do rádio e sonhava um amorzinho bacaninha. Descobri que era um apaixonado. Isso antes das punhetas. Tinha as festas de aniversário na casa de Rodriga. Mais baladas, e danças de rostos coladinhos. Música lenta e as primeiras paixões enrustidas na carne. Eu era um puro.
Chupava e comia creme dental no banheiro trancado. Mastigava batom da minha mãe e sumia, enfiado em algum buraco. Estava sempre procurando um esconderijo, longe das conversas dos adultos e das outras crianças. Isso para praticar as manias e os devaneios possíveis.
Hoje, encho a cara com uísque vagabundo em copo americano e como Salsicha Carioca.
Caro leitor, caso seja do interesse e para poupar-lhe o tempo precioso, sinta-se à vontade para saltar os próximos parágrafos e ir direto ao fim desta pequena crônica, sem qualquer prejuízo do conteúdo que se segue; isso porque esses primeiros parágrafos – sem dúvida, absolutamente inúteis e que, certamente, nas futuras edições (se é que elas virão) serão excluídos com justiça – interessam exclusivamente às minhas obsessões. Eles só têm importância – se é que realmente têm alguma – só tem importância para este autor e sua necessidade de se explicar até a exaustão. Volto a dizer, sinta-se à vontade para fazer uso desse e de outros recursos.
Ainda hoje, depois de todos esses anos, tenho comigo algumas páginas desse diário, páginas velhas e rasgadas das quais transcrevo aqui alguns fragmentos e datas, poucas lembranças que aos poucos desaparecem.